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RETORNADOS (parte2)

por Rosinda, em 16.06.09

 

  Foi em 1974 como tinha dito anteriormente, que tivemos de regressar a Portugal. A situação em Angola ficava a cada dia mais perigosa.Em nossa casa caiu uma bomba,destruiu a cozinha, nós escondemo-nos debaixo de uma das camas ,estávamos entre dois fogos, com dois miúdos de 2 e 4 anos.

Resolvemos sair dali sempre rentes ás paredes,conseguimos chegar ao quartel da nossa tropa.

Ficamos (nós e muitas pessoas) abrigados ali durante alguns dias.Depois as coisas acalmaram um pouco, alugamos uma casa perto do quartel, e continuamos a nossa vida.

Foi sol de pouca dura!Pouco tempo sossegamos,e nessa altura sim...era de meter medo!

Várias pessoas recolhi em casa(era perto do quartel!) A comida acabou, vi gente morrer,e depois deram 24h para abandonar-mos a nossa casa.

Foi difícil, deixar tudo para trás, mas o que eu queria era sair da zona onde estava, até porque não havia outro remédio!

  Fomos para Luanda, onde ainda viviam os meus pais, ainda estivemos aí uns meses, mas ficou tão perigoso que tinha-mos que voltar para a nossa terra!

Também não foi fácil, quase todos os portugueses (e não só) queriam embarcar para sair dali.

Portugal e outros Países puseram aviões a fazer carreiras de lá para cá, mas mesmo assim estivemos dois dias no aeroporto, sem comida , a não ser leite (NIDO)que fazíamos com água para nós e para as crianças.

Quando consegui embarcar foi um alívio.

O meu marido ficou, para ver se conseguia mandar por navio algumas das nossas coisas, eu só pude trazer uma mala de viagem com alguma roupa minha e dos meninos.

Quando cheguei a Lisboa, fiquei surpreendida com o caos que encontrei, era tanta gente!Nunca me passaria pela cabeça que estavam tantos portugueses em África.

Fui com os meus filhos para casa da minha sogra, como havia sido combinado. Algum tempo depois fui percebendo que em vez de sermos recebidos como gente da terra, éramos intrusos na terra que nos viu nascer.

Afinal que culpa tive eu e outros como eu do que se passou?

Só fomos ganhar a vida para uma terra que diziam ser nossa.

Não percebia, nem me interessava por política, limitava-me a trabalhar, nunca explorei ninguém!

Durante alguns tempos foi muito difícil aceitar o rotulo que nos atribuíram.

Entretanto chegou o meu marido,não tinha conseguido trazer o dinheiro das nossas poupanças, mas tinha mandado algumas coisas num navio.(chegaram passados meses toda estragadas)

    Como era de prever (depressa cansa quem não enche a pança) ou seja como não tinha-mos dinheiro e (casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão) acabamos zangados com a família dele.Assim acabamos a viver num patronato (casa de padres) onde fiquei grávida outra vez,não tínhamos trabalho nem casa,e estávamos longe de ser um casal feliz...

Por agora fico por aqui,mas não vou deixar de escrever

descobri que me faz melhor que o antidepressivo!

Vou deixar aqui um poema que fiz quando tinha 14 anos!

barres séparateurs St-Valentin

 

QUERO CHORAR

NÃO TENHO LÁGRIMAS,

QUE ME ROLEM NAS FACES

PARA ME SOCORRER...

 SE EU CHORA-SE...

TALVEZ DESABAFA-SE

O QUE SINTO NO PEITO

 E NÃO POSSO DIZER!

ESTOU CERTA QUE O RISO

 NÃO TEM NENHUM VALOR!

 A LÁGRIMA SENTIDA...

 É O REPARO DE UMA DOR...

E AGORA QUE JÁ TANTO CHOREI,

 NÃO TENHO LÁGRIMAS...

E SOFREREI...

           

           ATÉ BREVE!

  

 

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publicado às 20:50



"O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela." (Fernando Pessoa)


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