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RETORNADOS (parte3)

por Rosinda, em 20.06.09

 

 

 

 Hoje é dia do refugiado, dia portanto das pessoas que vêem fugidos das guerras, ou outro tipo de opressão,(digo eu) contudo não se fez dia nenhum para os "retornados",afinal também acabamos por procurar refúgio em Portugal! 

Mas não faz mal, eu costumo dizer que devemos ter dias para comemorar coisas boas, más não vale a pena!

              

         Vou continuar a falar de mim. Ano 1975, "retornada", mal casada, desempregada, sem nada, (quase) tinha dois meninos maravilhosos e estava á espera do terceiro. Tinha então 21 anos! Já era de maioridade!

Tempos difíceis...O meu marido encostou-se aos meus pais que entretanto abriram uma tasquinha, eu depois de muitas voltas, consegui um subsidio do então chamado (IARN) e com a ajuda dos Padres que nos acolheram, lá íamos sobrevivendo.

Mas o tempo ia passando, já faltava muita coisa, ia nascer mais um filho, e eu não arranjava trabalho porque estava de bebé ele acomodou-se ajudava os meus pais, comia por lá, portanto procurar trabalho para quê? Só se for na minha área de trabalho! Dizia ele. Como bons empregos não era fácil arranjar, o tempo ia passando.

Chegou a altura de nascer o bébé! Fui internada, com dois cm de dilatação, no dia 14 de Novembro, como no dia 16 o meu filho mais velho fazia 6 anos, eu pedi ao médico para ir passar o dia com o menino, uma vez que não tinha havido nenhuma alteração, deixou, e lá fui eu para a casa da minha mãe que era por detrás da tasquinha.
Meu Deus ! Ainda hoje, e já lá vão 33 anos, se me aperta o coração meu menino foi atropelado...Ia atravessar a rua para ir ao quiosque em frente, comprar cromos. Entrei em pânico, levaram-nos aos dois para o hospital. Eu queria ficar com ele mas não me deixaram!

Levaram-me para o andar da maternidade, ele foi para o serviço de urgência.Passaram algumas horas que me pareceram anos, até que uma enfermeira me veio dizer que o menino ia ser transferido para o Porto. Corri até ás urgências, não havia quem me segurasse! Quando lá cheguei  o menino já estava na ambulância, mas ouvi os médicos dizerem ao motorista: vá com o máximo de velocidade possível, dentro da segurança! Essa criança está muito mal!

Não consigo descrever a dor sentida... queria ir com ele! Implorei, dizia-lhes que lá também podia ter a criança, mas não adiantou...Vi o menino ir (o pai foi com ele) não falei mais para ninguém, não me alimentava, nada me interessava, cai numa apatia, que não sei como explicar.

O meu filho esteve três dias em coma. Tinha uma hemorragia interna, não havia na altura os meios de diagnóstico que temos agora, daí demorarem a ver que era do rim esquerdo que estava magoado. Foi operado de peito e barriga abertos, tem uma cicatriz enorme, mas foi preciso para ver de onde era que perdia sangue.

Enquanto isso eu continuava no outro hospital, o trabalho de parto parou, aliás eu toda parei,só duas semanas depois, quando o meu marido me disse: O menino está fora de perigo, bebeu hoje o primeiro copo de leite! Aí sim desatei a chorar (não tinha chorado antes) a gritar até! Agradecendo a Deus por  ter salvo o meu filho. Tive a minha menina a ferros nesse dia ...muito branquinha... com olhos azuis.

passaram mais três dias o meu filho ia ter alta e eu continuava no hospital, perguntei ao médico se era por causa da menina que não podia ir para casa ... ele disse que era por mim que o trauma tinha sido muito grande! Pedi para me dar alta que me sentia bem e queria estar em casa quando o meu filho chegasse, não deu, na hora das visitas, fugi do hospital, com a minha filha.Andei com ela ao colo a fazer compras para quando o irmão chegasse ter as coisitas que gostava.

Quando vi o meu filho tão magrinho... Parecia um velhinho, até  tinha rugas... Fiquei com medo mas aí já achei que era normal, tinha ficado muito tempo sem comer, perdeu muito sangue, tiraram-lhe o rim, achei que agora tinha de cuidar bem dele alimentá-lo em condições, que ele ficava bem, e assim foi, Graças a Deus!

     Vou continuar, dizendo que o tempo foi passando, logicamente o meu marido acabou por arranjar trabalho na profissão dele (topógrafo) eu fazia umas costuras em casa e olhava pelas crianças.

Entre muitos maus momentos, o que me magoava mais era a frieza... a indiferença da nossa relação. Acabei por ver que não  conseguia amar de verdade aquele homem que era meu marido mas respeitava e tinha amizade, aquele que era pai dos meus filhos, e fui vivendo... acomodada á situação, oito anos depois tive mais uma menina, ele queria que eu abortasse, mas eu não  quis era e ainda sou contra o aborto!

Assim cheguei aos trinta anos, com quatro filhos e casada á quinze!

Em 1984, o meu marido resolve voltar para Angola, trabalhar com a mesma Firma. Não quis ir! Fiquei, ele vinha todos os seis meses. Ao fim de dois anos fez-me uma imposição, ou vens comigo ou vou viver a minha vida... Era difícil tinha que deixar os meus filhos com a família , porque não havia condições lá  para levá-los, mas disse que sim, ia tratar do passaporte para ir Mas depois de reflectir, e de muitos antidepressivos, pensei eu vou deixar quatro filhos que são os pilares da minha existência,  para seguir um homem que não amo?  E se ele me deixa e não dá o sustento aos miúdos? Eram perguntas que fazia a mim mesma, mas não via solução, qualquer das coisas era má!

Mas eu era nova, podia trabalhar e embora com mais dificuldades podia-mos viver. Assim pensando disse-lhe que não ia, que fizesse o que entendesse. Entre grandes discussões,disse-me que eu não prestava, era frígida que ia arranjar outra. Afinal já a tinha. Era uma negra , e eu fiquei mesmo sozinha, mandava dinheiro que chegasse e sobrasse mas a verdade é que eu sabia (ele dizia-me) que tinha essa mulher.

Eu um ano depois conheci outra pessoa, e apesar de já ser uma mulher, voltei a cair numa armadilha do "destino" só que desta vez amei de verdade....

E de verdade só se ama uma vez!

barres séparateurs St-Valentin

AI QUE DESTINO TIVE EU,

AMARGO DESDE CRIANÇA,

AI QUE SOFRIMENTO O MEU.

SOFRIMENTO SEM ESPERANÇA...

                                  

COITADINHA EU NÃO SOU,

 NADA ME FOI AMPUTADO,

SOU UM SER QUE SÓ AMOU...

SEM NUNCA SENTIR-SE AMADO

 

Rosinda

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publicado às 14:11



"O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela." (Fernando Pessoa)


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